Resolvi publicar essa matéria para que possamos ter uma visão diferenciada, do ponto de vista de uma marxista sobre o machismos. Estamos acostumados a ter uma panorâmica do assunto do ponto de vista da classe dominante, o que não contempla a maior parcela da sociedade....
Boa leitura . Ass.: Alencar...
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fonte: LIT.
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Escrito por Cecília Toledo
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Seg, 29 de Setembro de 2014 12:13
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Tanto que logo em seguida ao discurso, criminosos cibernéticos ameaçaram divulgar fotos da estrela nua para desmoralizá-la.
É claro que quando uma estrela tão famosa assim faz um discurso desse tipo, chama a atenção do mundo para o problema. Muitas mulheres fazem esse mesmo discurso todos os dias, nos bairros, nos sindicatos, nas mobilizações de rua, e nada acontece. E não apenas por causa dos meios de comunicação, mas sobretudo porque Emma não diz toda a verdade e cria ilusões de que um organismo como a ONU poderá dar igualdade de direitos às mulheres. Esse é o verdadeiro sentido do discurso da atriz.
Dormindo com o inimigo
A participação de Emma Watson na Assembléia Geral da ONU como Embaixadora da Boa Vontade não é um acontecimento fortuito. Faz parte de uma campanha da ONU chamada HeforShe (Ele por Ela) destinada a chamar os homens a se empenharem na luta contra o machismo. A situação das mulheres, sobretudo, as mais pobres e as trabalhadoras dos países coloniais e semi-coloniais está cada vez mais grave, se é que já não entrou na barbárie. E isso não é bom para a imagem da ONU e tampouco para os negócios da burguesia.
A situação cada vez mais crítica das mulheres, e de outros setores mais fragilizados pela opressão, como os negros e os imigrantes, está diretamente ligada às ações da própria ONU. As condenações apenas formais aos governos que toleram a opressão e os preconceitos e às seitas religiosas cujos costumes retrógrados agridem as mulheres não resolvem. Por outro lado, a ONU faz vista grossa contra o que está se tornando uma política deliberada; nas inúmeras guerras que vêm ocorrendo contra os povos, promovidas pelo imperialismo, o estupro de mulheres tem sido comum, transformando-se em arma para desmoralizar e vencer o adversário.
Chega a ser contraditório exigir da ONU uma política categórica contra isso, exigir que respeite sua própria Carta de Princípios, porque seria o mesmo que exigir que ela proibisse as guerras, as seitas religiosas e os governos ditatoriais. Que ela deixasse de ser imperialista. E isso está longe do papel da ONU, um instrumento criado pelas grandes potências imperialistas justamente para legitimar suas ações opressivas sobre os povos coloniais e semi-coloniais.
Interesses em jogo
Foi para isso que a ONU foi fundada, em 1945, logo ao final da II Guerra Mundial, para ser um instrumento de paz entre todos os povos e garantia da igualdade e respeito aos direitos humanos. Seriam as nações unidas acima de qualquer coisa, de qualquer particularismo, enfim, o Estado absoluto tal qual falava Hegel, pairando acima da cabeça de todos os homens e promovendo a igualdade entre todos.
No dia 26 de junho de 1945, em São Francisco (EUA), o presidente norte-americano Harry Truman, ao lançar a Carta de Princípios da ONU dizia exatamente isso: “Esta Carta não foi obra de uma só nação ou de um grupo de nações grandes e pequenas, mas o resultado de um espírito amplo de oferecer e aceitar, de uma máxima tolerância diante de pontos de vista e dos interesses dos demais” (ver artigo de Angel Luis Parras, na revista Marxismo Vivo n.2, de outubro de 2000)
Quando, na virada do milênio, as diversas ONGs e intelectuais queriam que a ONU se tornasse um grande Parlamento Mundial, com sua máxima democratização, perguntávamos: “É possível um ‘parlamento mundial’ por cima dos Estados, dos exércitos, das multinacionais, dos bancos, capaz de impor democraticamente decisões contrárias à sua vontade? (idem)
A tão sonhada igualdade de direitos, uma bandeira democrática bem antiga, que vem da Revolução Francesa de 1789, não faz parte do programa da ONU; pelo menos a igualdade verdadeira entre homens e mulheres. A ONU promove campanhas pela igualdade, pelo aprofundamento da democracia, pela realização de uma sociedade fraterna e feliz, sem guerras e genocídios, sem derramamento de sangue e pela liberdade de todos os povos.No entanto, a verdade nunca esteve mais distante; a cada dia o mundo se parece menos com essa fantasia toda. Esse mundo idílico construído pela ONU que inclusive permite que uma atriz famosa faça discursos exigindo a igualdade de direitos (em outras palavras, acusando o mundo capitalista e a própria ONU de manterem a desigualdade) não existe.
Em nome da “democracia”, a ONU sustenta ditaduras que violam os direitos humanos, como a de Assad, na Síria. Em nome da “democracia”, a ONU não faz nada para impedir as mutilações contra as mulheres na África, Oriente Médio e outros países. Não faz nada para impedir o genocídio contra o povo palestino, perpetrado por Israel e o imperialismo americano desde 1948. Não faz nada para impedir que milhões de mulheres sejam estupradas e violentadas todos os dias, vivam em favelas e morram por abortos clandestinos.
A igualdade que precisamos
Discursos como o da atriz Emma Watson dão fama e projeção às campanhas da ONU, que precisam dessa fama porque nunca resolvem nada. As crises econômicas, “a paz armada” e a crescente miséria dos povos são elementos que agravam todas as opressões, mas o imperialismo continua mascarando tudo isso com sua falsa democracia.
A emancipação da mulher é concreta e não pode se assentar em direitos abstratos. Os discursos e campanhas contra o machismo, contra o assédio sexual e a opressão são importantes, mas devem vir acompanhados por medidas palpáveis. Para igualar-se ao homem nos direitos políticos, profissionais e de vida humana, as mulheres precisam, antes que nada, de pleno emprego. Todas devem ter direito ao mercado de trabalho, em igualdade de condições salariais e profissionais que o homem. Para acessar esse mercado, as mulheres precisam de creches públicas onde deixar seus filhos; precisam de moradia digna e todos os serviços públicos à disposição. Precisam também livrar-se da dupla jornada, o que significa a socialização dos trabalhos domésticos, ou seja, que o Estado se encarregue deles. Precisam também ter o controle total sobre seu próprio corpo. Nem o Estado, nem a Igreja ou qualquer outra instituição têm o direito de decidir por ela, isso é totalmente anti-democrático. A mulher deve ter o direito a fazer aborto quando quiser, e esse direito só é direito de fato se o aborto é legalizado e pode ser feito em hospitais públicos.
Todo esse programa que objetiva a igualdade de direitos de que fala Emma Watson não está nos planos da ONU. Basta ver as estatísticas. Cada vez há menos empregos, piores serviços públicos e maior influência das idéias retrógradas da Igreja e todo tipo de seita, com o apoio velado ou descarado dos governos de todos os países. Todo tipo de idéias místicas, superstições e ignorância preenchem o vazio deixado pela educação de qualidade, pela inteligência e a razão.
Aqui cabe uma reflexão. Mesmo esmagados dessa forma, os povos reagem. As lutas contra os regimes autoritários, contra a dominação imperialista e a exploração capitalista apontam uma perspectiva para os povos oprimidos. Não será o aprofundamento da democracia burguesa, como defendem algumas correntes de esquerda e intelectuais, que vai resolver o problema, porque é uma democracia para poucos. Aqui se trata de mudar o sistema em pleno, o que só uma revolução socialista poderá fazer. Essa é a tarefa da classe trabalhadora em todos os países, com seus homens e mulheres oprimidos, confusos em meio a tanta superstição, mas sem outro caminho que se unir e lutar.
FONTE: LIT.
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